terça-feira, janeiro 09, 2007

Incorrecções políticas

Chama-se Mark Steyn e a melhor recomendação para o seu livro “America Alone” é o azedo comentário do embaixador saudita em Washington: “A arrogância de Steyn não conhece limites.” Pois não, tanto que Steyn reproduz orgulhosamente esta frase na própria capa do livro, como uma medalha.
“America Alone” é um festival de incorrecção política, escrito com um humor caceteiro. Tese: o “fascismo islâmico” aí está para submergir a civilização ocidental, quanto mais não seja por razões demográficas – eles nascem quatro ou cinco vezes mais do que nós, amolecidos cidadãos das sociais-democracias que perderam todo o instinto de sobrevivência e toda a noção de iniciativa individual, viciados na droga do Estado ao qual se confiaram todas as responsabilidades. Desistimos de nos reproduzir, nascemos menos do que morremos, permitimos o aborto e os casamentos homosexuais improdutivos, perdemos tempo em pesadelos “ecocondríacos” sobre a subida do nível dos oceanos e não vemos a maré que nos vai submergir. A Europa afunda-se no multi-culturalismo e no relativismo, a contemporizar e a abdicar da sua defesa - e amanhã estaremos todos a rezar virados para Meca, e as nossas mulheres de burka. Os fanáticos islâmicos que se fazem explodir são, literal e onomatopaicamente, filhos do “baby-boom” que aniquilará a nossa civilização.
Solução para isto? A América. Os EUA é que salvarão o mundo da ameaça dos Mohammeds, com a sua cultura de responsabilidade individual, com os seus índices demográficos ainda acima do ponto de inversão, o seu espírito combativo. Um grupo de jovens islâmicos assalta automobilistas em Inglaterra, amolga-lhes os carros, obriga-os a entoar loas a Alá, e sai impune? “Tente fazer isto no Texas: o tipo abre logo o porta-luvas e prega-lhe um tiro no focinho.” Porque não faz parte daquela minoria de mariquinhas que troca uma legítima arma de legítima auto-defesa por abracinhos a quem o agride.
Racismo de extrema-direita? Steyn ri-se: não, o problema é sobretudo da Esquerda. “Por mim estou-me nas tintas. Sou social-conservador. Quando os mullahs vierem aí, deixo crescer a barba, arranjo mais duas ou três mulheres e vivo sossegado e feliz. Quem se vai lixar são os gays, as feministas e toda essa esquerdalhada.”
Pode arrepiar muita gente, mas vale a pena ler. Aliás, vale sempre a pena ler um gajo que diz: “Não tenho resposta para tudo, excepto quando sou entrevistado em directo na televisão.”

11 comentários:

FuckItAll disse...

Conheço bem este argumento. Se descontarmos o papel salvador dos EUA, pode até dizer-se que convivo e mesmo coabito com ele.

Discordo, claro está. Nunca me convencerão que a melhor maneira de evitar a putativa "extinção cultural da Europa" é deitar fora todos os melhores valores que caracterizam essa cultura.

Se queremos pugnar pela civilização europeia, isso tem antes que passar por uma defesa feroz dos valores e modos de funcionamento que nos são característicos - ainda que seja preciso repensar e actualizar os modos de aplicação desses valores, e mesmo que esta defesa tenha custos e riscos.

Caso contrário, corremos é o risco de, no afã de salvar a Europa, sermos nós a enterrá-la sob regras do jogo que não são as nossas.

Mouro da Lapa disse...

O facto é que - tirando a retórica extrema que (aposto) nem o próprio autor levará pessoalmente a sério na totalidade - resta um facto inegável, independentemente do juízo, das interpretações e dos usos ideológicos que lhe dermos: a crise do modelo europeu do Estado-Providência, cada vez mais oneroso perante o declínio demográfico, e mesmo a inversão da relação entre os nascimentos e as mortes, que implica um decréscimo populacional cada vez mais compensado pela imigração. A questão está, por isso, sobretudo na definição de quais são os parâmetros que definem uma "cultura / civilização." O que é ser "europeu" ou "ocidental"? E qual o futuro dos valores definidores dessa "civilização" perante a pressão demográfica de culturas que não os integram, mas que cada vez mais têm voz no próprio interior da Europa - ou do chamado "Ocidente"?

FuckItAll disse...

Provavelmente continuo a falar ao lado do que achas mais inportante aqui, mas conversas paralelas também têm interesse. Estás a pensar nas opções económicas-sociais, e eu aqui estava mais interessada na discussão ideológica/cultural.

O que quis dizer é que não acredito no potencial de uma cultura que se quer impôr pela força (da lei, presumo). Pelo contrário, acho que todos os exemplos de sistemas culturais bem sucedidos, no sentido de serem duradouros e pervasivos, são de culturas que encontraram formas de incluir grandes diferenças no seu interior.

O hinduísmo é um exemplo fácil disto mesmo. Mas nem é preciso ir tão longe, é pensar no modo como o cristianismo se expandiu na Europa. O nosso continente dificilmente seria tão monoliticamente cristão se não tivessem sido encontradas formas de aceitar e incluir uma míriade de crenças e práticas, de divindades e rituais, que na origem eram totalmente estranhas ao cristianismo. De resto, todo o calendário cristão é feito de datas e festas que lhe são estranhas e anteriores.

Quando se começa a discutir o direito das populações imigrantes (as tais que demograficamente nos estão a invadir, porque demográfica e economicamente precisamos delas) manterem os seus "sinais exteriores de diferença" (estou a pensar no caso do véu das muçulmanas, por ex.), parece-me sempre que somos nós a manifestar a nossa pequenez e os nossos medos. E que este tipo de discussão aumenta medos e conflitos, não os resolve - certamente não a bem dos valores europeus.

Mouro da Lapa disse...

Também a mim me interessam mais as questões ideológicas e culturais. Mas elas surgem de questões económicas e sociais. It's the demography, stupid! É a porque elas existem que depois se colocam os problemas de "identidade", de "cultura", etc.
Eu estou a tentar ver as coisas num plano "macro". Até que ponto certos "acquis" fundamentais da civilização europeia, não partilhados por outras (neste caso, pelo Islão) estarão ameaçados seja a que prazo for? Qual será o preço da miscigenação, da diversidade, dessa integração de que falas?
A comparação com o Império Romano é recorrente, porque irresistível. As teorias da assimilação pacífica e do enriquecimento na diversidade sobre a sua "queda" estão a ser revistas por algumas escolas, que regressam à tese da queda violenta e do retrocesso civilizacional que significaram as "invasões bárbaras" (cf. "A Queda de Roma e o Fim da Civilização", Bryan Ward-Perkins, Ed. Aletheia, 2006). Isto é: perdeu-se, no processo, muita coisa de bom, e que em alguns casos só foi recuperado mais de mil anos depois.
Eu sei que tudo isto é bem mais complexo do que uma simples visão dualista ou maniqueísta. E, citando o autor do livro que justificou este post, eu não tenho resposta para tudo. Mas um dia destes dou uma entrevista em directo e então é que vai ser giro.

FuckItAll disse...

Só uma boca, que agora não vou argumentar: e a queda do Império Romano não coincide com o fechamento, com as perseguições à diferença religiosa? Ou seja, não é verdade que o Império integrou tudo e toda a gente sem enfraquecer enquanto se limitou a pedir para César o que era de César e não se meter nas crenças e práticas das pessoas?

FuckItAll disse...

Ah!, concordo que o que torna esta conversa necessária são as questões demográficas e económicas, por isso disse que se estávamos a ser "invadidos" é por precisarmos dessa invasão. Senão limitamo-nos a entrar em colapso económico total e já não é preciso preocuparmo-nos com os nossos valores...

Mouro da Lapa disse...

Exacto, quanto á história da invasão. Mas a pergunta fundamental é: porque é que precisamos dela? O que fizemos - ou não - para já não nos bastarmos? O argumento parece o de um gajo endividado: "Se peço emprestado é porque preciso do dinheiro". É claro que precisa. Mas bom, bom, era não precisar.

Quanto à queda do Império, ainda vou averiguar se há alguma relação de causa-efeito - e, se há, qual foi a causa, e qual foi o efeito.

FuckItAll disse...

Que fique absolutamente claro que, quanto ao IR, estava a atirar a coisa como assunto de discussão, porque não estou lá muito segura que seja verdade. Mas gostava de pensar melhor nisto.

Mouro da Lapa disse...

À margem do essencial desta questão, só um exemplo, já que citei o Ward-Perkins, da tese do retrocesso:

Ele refere as inscrições encontradas na parede do que foi um bordel em Pompeia, feitas por clientes, e dizendo coisas do género (não me lembro da letra, mas eis o espírito): "Fulanus de Talus deu aqui uma queca fabulosa".

Isto, além de provar marginalmente que as meninas de Pompeia seriam excelentes profissionais, mostra sobretudo que o vulgar cidadão romano da época sabia ler e escrever, e usava esse conhecimento na sua vida quotidiana.

Quanto tempo teve que se esperar para isso se verificar de novo na Europa? (Em Portugal, como se sabe, ainda não se verificou)

FuckItAll disse...

Mas prova também que o essencial se mantém ao longo dos tempos, a bem dos Fulanus e para nossa tranquilidade. Falo também (não só, mas também) da poesia de WC, essa grande arte desconsiderada.

Mouro da Lapa disse...

Got me...