segunda-feira, junho 04, 2007

A imagem do século


Não se sabia, e parece que continua sem se saber, quem era este homem, ou o que andava por ali a fazer. Aparentemente, naquele Junho de 1989 em Pequim, seguia na sua vidinha quotidiana e anónima, carregando dois sacos, possivelmente com compras no supermercado.

E, subitamente, este ser anónimo encontrou-se com a História que rolava pelas ruas. Então, saltou para a frente dela. Sozinho. Armado com dois sacos e o seu corpo, mas sobretudo com a vontade de não arredar pé perante uma violência intolerável. E ali ficou, parado, mostrando como 60 ou 70 quilos de carne e sangue podem enfrentar centenas de toneladas de aço e fogo.

Conheço poucas imagens tão comoventes como esta, tirada no ano em que o século XX realmente terminava - o século mais violento de sempre, o século dos grandes confrontos entre a liberdade e a brutalidade cega do poder e das ideologias, entre a dignidade humana e opressão das grandes máquinas industriais e políticas. O século dos sonhos pervertidos e das ilusões perdidas - mas também o de uma certa afirmação moral perante a barbárie e a desumanização. Que é o que este homem está a fazer.

O século XX que ainda é o de todos nós foi o século da imagem, e há-as, poderosas - as matanças da I Guerra Mundial, Lenine falando às massas, Hitler, o cogumelo atómico, o homem na Lua, centenas de outras. Mas se me pedissem para escolher a imagem que melhor o retrata, eu não hesitaria. Escolhia esta.

2 comentários:

FuckItAll disse...

Eu dava-te um clap, clap, clap, não fosse o assunto demasiado triste para palmas.

Joana D'Apre disse...

Obrigada por nos lembrares que por entre os bárbaros se movem os excepcionais.